sábado, 19 de setembro de 2009

democracia e violação de correspondência


A transcrição feita pelo DN de um mail enviado entre duas pessoas, jornalistas ou não, ultrapassa o acto jornalístico e volta a fazer tinir o “espanta-espíritos” sobre a existência de uma entidade parda que nos controla e visiona sem ser vista nem identificada.

Não acredito que um dos dois jornalistas intervenientes tenha aberto portas à saída do mail da sua caixa de correio, o que me faz pressupor que alguém acede às nossas mensagens privadas - às dos mais importantes para que os intuitos do sistema cheguem a bom porto, obviamente. Isto faz-me também pensar, muito embora possa parecer “teoria da conspiração”, mas os anos se encarregarão de me dar ou não razão, que os nossos próprios mails, se alguma vez tivermos contacto com alguma dessas pessoas, “alvos a abater”, poderão ser esmiuçados, por menor importância que possam ter.

Adiantaram-me há meses que correspondência electrónica trocada entre duas pessoas envolvidas num caso mediático foi, de forma dissimulada, utilizada para tentar indiciar a culpa de uma das partes, de uma forma algo grotesca, por sinal. Por aqui não vale a pena alongar-me.

O importante, em tudo isto, é a impressão que fica de que o PS de Sócrates, muito provavelmente com o caminho já aberto por outros governos e pelo próprio PDS, nos trouxe essas benesses que são as escutas ilegais, a utilização ilícita de formas de investigação que apenas podem ser levadas a cabo por ordem do tribunal. Se não podem ser utilizadas (ainda) como prova, podem lançar para o terreno a desconfiança e fazerem-nos sentir pouco seguros, não apenas na rua mas, essencialmente, na nossa privacidade, no nosso pensamento.

Jerónimo de Sousa erra quando diz que estão a tirar-nos direitos e liberdades que demoraram dezenas de anos a conquistar. Erra apenas no tempo do verbo. Não estão a tirar-nos, já nos tiraram. Pior, fizeram-no com a anuência e utilização do outrora quinto poder: jornalistas vendilhões do seu próprio estatuto e da sua carteira profissional que estariam obrigados a defender. Mais grave ainda, poucos são, muito poucos mesmo, os que alertam para a situação de ilegalidade e de violação da democracia: tão importante como as hipotéticas escutas é saber como veio este mail a público.

Eu não sei, mas desconfio. E desconfio que isto é apenas o apuramento de algo que um simples funcionário público, quiçá no ministério certo, me disse há mais de dez anos: “qual ordem do juiz, qual quê, basta eu querer pôr a tua linha sob escuta”. À altura entendi como gabarolice; neste momento a frase assalta-me e acredito que ressoe na democracia e em toda a vida civil portuguesa.

Portugal corre perigo. Nós, portugueses, pusemo-nos a jeito e continuamos cegamente a ajudar a cercear liberdades conquistadas.

Talvez a História seja assim mesmo, cíclica. Talvez nós sejamos um povo conformado, navegadores à bolina.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

uma visão de (ou do) futuro

Impressão minha ou: se Salgueiro Maia pudesse prever o futuro, nunca teria saído de Santarém?!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

psicologia de pacotilha




Um dos problemas do Ser Humano, e que lhe pode causar grande mal-estar é, não exactamente tentar chegar mais longe mas convencer-se que nasceu grande e exemplar. Não consegue entretanto ver-se e aceitar-se em crescimento, deseja muito além do que a sua própria perna consegue alcançar. Esquece aquela velha máxima do 1% de talento e 99% de trabalho, alimentando um certo sentimento de inveja em relação a quem lhe parece ou está efectivamente mais longe, eventualmente porque até tem o dobro do talento e do trabalho.

A nossa medida deve ser a nossa capacidade e essa é para alimentar com metas alcançáveis a curto ou médio prazo. Não será boa ideia renegarmo-nos porque não somos ou não atingimos o patamar de alguém com quem, teimosamente, queremos comparar-nos. Sumariamente, anulamo-nos, e às nossas qualidades, quando queremos ser o que não somos; quando, por vezes, perdemos o discernimento e a modéstia sobre nós mesmos.

Ao longos dos últimos cinco anos, a completar em 22 de Agosto, tenho assistido a várias formas de lidar com este mesmo sentimento: ou são velhos que mantêm uma postura superior quando nunca chegaram a ser ninguém; ou são novos, que rapidamente se farão velhos iguais aos outros, a quererem alcançar num passo o que necessitam de muita luta para conseguir. Uns e outros são frustrados. Interiorizam e exalam frustração, espalhando-a, comunicando-a a terceiros. Não são boas companhias e provocam um mal-estar interno cuja origem é dificilmente identificável.

Talvez por isso, cada vez mais aprecio o meu caminho solitário, auto-crítico, de muita insegurança, mas onde não faço comparações. Apesar de todos os rótulos que me possam pôr, positivos ou negativos, tenho vindo a tomar cada vez mais consciência da minha pequenez e do quanto seria necessário trabalhar para alcançar metas muito além das que a minha falta de entrega e espírito de sacrifício me permitem.
Obviamente que a isso muito ajudaram críticas sem sentido e injustas; a isso muito ajudam as críticas frias e objectivas, mas envoltas num certo carinho, do meu filho e da minha mãe (em quem, inexplicavelmente e por cegueira minha, encontrei uma comum mas sensível “olheira” fotográfica).

Se gostaria de alcançar outros patamares na fotografia? Com certeza que sim. Sou tão humana como todos os outros. Só não faço disso uma questão de vida ou de morte; interiorizo aquilo que quero e estou disposta a dar em relação ao mister e, sobretudo, mantenho uma postura de muita dúvida em relação à qualidade que podem ter fotografias que são feitas por prazer do mais genuíno, para a obtenção das quais não há um superior investimento psicológico ou de trabalho.

Regredi aos tempos do Ar.Co: máquina ao ombro, a sentir e a comunicar com o mundo. Demorou? Sim! Foram anos a acumular frustrações de opiniões alheias, a maioria das quais não sei se sempre dadas com boa intenção.
Tenho as minhas metas, obviamente que tenho, mas de acordo com a minha capacidade, o meu espírito de sacrifício e sempre muito consciente de que a fragilidade de um e de outro me podem dificultar o seu alcance.

Comparações com outros? Não é o caminho.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

eu, precária me confesso



Nunca, que me conste, a Select/Vedior ou qualquer outra Empresa de Trabalho Temporário (ETT) defendeu um trabalhador seu, meros braços e cabeças a funcionar (no caso da Sonaecom, em péssimo ambiente laboral) para, da sua força de trabalho, darem um lucro à ETT que se situa na ordem do dobro e por vezes do triplo do que o empregado recebe.

Não há formação capaz, existe uma luta e desgaste constantes do empregado temporário, todos os meses com o pescoço na guilhotina, sem nunca saber quando cai a lâmina. Foi assim em Maio de 2008, quando a Sonaecom encenou preocupação em integrar gente colocada na ONI, oferecendo a quem tinha turnos matinais horários vespertinos. Dessa vez nada se falou, nada se soube. Até porque o trabalhador que se encontra sujeito à dificuldade de encontrar um emprego directo e a ser passado entre ETT’s como se de mercadoria se tratasse, receia, ao próximo e sempre latente desemprego, não encontrar onde se sujeitar a nova exploração desavergonhada – não vamos esquecer que o Provedor dos trabalhadores temporários, Dr. Vitalino Canas, continua a ser pago pelas ETT’s.

Hoje é diferente. Será a própria Select/Vedior a lamentar, não o desemprego forçado de duas centenas de pessoas – como não lamentou nem arranjou colocação para as dezenas dispensadas em 2008 - mas o facto de ter perdido um concurso relativo a tão importante cliente, que fez com que pessoas a necessitarem de ganharem para viver fossem tratadas como gado excedentário.

O mercado de trabalho está minado e, até para que as ETT’s ganhem concursos, será de todo aprazível que haja alguém bem colocado, a punir pela dita.
Faça-se uma análise às ETT’s que têm trabalhadores colocados no Estado (sim, o Estado tem quadro de excedentes mas também recorre às Ett’s!) e talvez se encontrem ligações interessantes. Já agora, dê-se uma vista de olhos pelas empresas de segurança que prestam serviço nos vários organismos do Estado, em que uma delas sobressai, e tente perceber-se o motivo.

Mas as ETT’s vão passar por um mau bocado e, consequentemente, todos os trabalhadores que delas dependem, que não passam de números, contabilizados por ordenados dos quais recebem, na melhor das hipóteses, metade.
Em período pré-eleitoral, a nova atitude é trabalhar para as estatísticas do desemprego. E passo a explicar: dispensam-se funcionários por extinção de posto de trabalho, absolutamente colocáveis e válidos para outros postos e vão-se buscar as pessoas que estão no fundo de desemprego, que continuam a receber o fundo de desemprego, cobrindo o organismo do Estado onde serão colocadas o diferencial para que a tabela salarial fique correcta.
Compreensível e nada contra, uma vez que até representa poupança para todos nós, mas porquê só agora, a um mês das eleições? Porque motivo alguma vez entrou no Estado um contrato com uma ETT?

Acredito que as estatísticas mensais do desemprego venham a sofrer grandes alterações antes do acto eleitoral. Saem do desemprego, ainda em Agosto, uns milhares de pessoas; entram nas estatísticas do desemprego, já em Setembro ou em Outubro, mais algumas, dispensadas pelas ETT’s. Salve-se a aparência para as eleições

Interessa a algum órgão de comunicação social falar disto? Que se me aparente não – já tentei e a resposta foi: “isso já não é notícia, já todos falaram disso”. Falar é uma coisa, analisar e procurar motivos outra, totalmente distinta

E cá continuamos, cantando e rindo, até chegar um ditador (honesto, porque dos outros já temos), ou irmos contra a nossa índole laxista e fazermos, de uma forma síncrona, alguma coisa por nós mesmos.

Já agora, se tiverem por aí trabalho – não peço emprego mas mesmo trabalho, justamente remunerado - eu e mais uns tantos, todos com currículos conquistados a pulso, em que as licenciaturas não foram obtidas a um domingo, muitos apanhados na reviravolta da crise ou das desculpas com ela, nós, alguns dos precários agradecemos.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

todos nós


...temos paixões na vida. Todos nós temos um ou mais pais e mães dessas paixões.
A minha paixão pela leitura começou nesta casa, gerida por esta senhora.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

será que


...os animais reflectem os donos?

terça-feira, 7 de julho de 2009

a monotonia


...de um biorritmo.

domingo, 5 de julho de 2009

além do tejo


"...só se for para sul!"

sábado, 4 de julho de 2009

a beleza da maternidade aos 20 e poucos


...descobre-se realmente aos 40 e tal - faz-se uma viagem e percebe-se que se tem tudo o que sempre se desejou... e por pouco não acabávamos em Ceuta!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

uma estranha trilogia


ARS, Bombeiros Voluntários e Assistência Social.

domingo, 28 de junho de 2009

burrice e ausência de raciocínio


...só têm mesmo um destino possíval! Irra!

domingo, 21 de junho de 2009

(in)utilidade da imagem

Por serem tantas as imagens de conflitos, sejam eles sociais, políticos ou étnicos, as situações estão banalizadas. Sem ser psicóloga social ou o que seja, acredito que já olhamos para estas imagens como algo que faz parte do dia-a-dia.
Por outro lado, conflito nem sempre é sinónimo execução de bom trabalho, seja a nível de imagem, seja na condição de redactor. Se, por norma, as agências e órgãos de comunicação se preocupam em enviar para os locais os seus melhores elementos (ou quero acreditar nisso), nem sempre o resultado é superior. E o produto está à vista, nesta nova confusão gerada no Irão. Uns retratecos sem estória e que, quase de certeza, não ficarão para a história.

Quem, dos que viram, não se recorda, pelos finais dos anos 90, e muito tempo depois do massacre de Santa Cruz, em Timor Leste – imagens já de si, e também por serem poucas, fortes – quem não se lembra, dizia, daquela mão que tapa a boca da criança que chora, durante a fuga da população para as montanhas? Acredito que tenha sido mais importante na paragem que Lisboa fez, durante a visita de alto dignatário e Prémio Nobel da Paz, do que qualquer acção política ou religiosa tida por algum elemento designado para as relações internacionais e/ou diplomáticas timorenses.

Volto a reportar-me ao Irão e às poucas imagens que tenho visto. Mais não conseguem do que fazer-me perceber que há (mais um) conflito no Médio Oriente. Banais, os conflitos; corriqueiras, as imagens.
Não basta estar. É necessário sentir e transmitir o que se sente; é necessário envolvimento e desgaste emocional. Só assim a imagem pode ter a função que muitos lhe querem dar sem a conseguirem atingir.
Imagem há sempre que existe um suporte, sem necessidade sequer de um operador.
Costumo dizer que há locais, nomeadamente situações de guerra ou conflito, em que se deixa cair a máquina e se obtém uma boa imagem. No pouco que tenho visto, julgo ser esse o problema: têm de deixar cair as máquinas porque, escolhendo os enquadramentos, não vão lá.

Muitos podem ter guitarra mas poucos conseguem ter unhas para a fazer tinir.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

desabafos partilhados


Confeitaria Nacional (1984)

Castelo de São Jorge (2002)

Fotografar é quase um acto de egoísmo, muitas das vezes justificado pela solidão sentida quando tenho uma série de pessoas à minha volta com quem, por este ou aquele motivo, não consigo comunicar.


É nesse momento, em que me torno surda e muda, em que os gestos já não ritmam qualquer som, em que me sinto um ET a aguardar a nave, que me deixou aqui por engano, que sinto uma explosão de todos os outros sentidos, essencialmente o da visão, que entra em acordo directo com o sentimento. É aí que me apetece ter uma máquina e registar as coisas mais simples, que me dizem mais do que as pessoas que estão ao meu lado. E não é uma regressão. É um estado de necessidade de comunicar, do mais simples ao mais complexo, mas de coisas que não espero que os outros entendam.


As minhas mãos andam a necessitar de acariciar uma máquina. Os meus olhos, querem reter coisas simples. Não daquelas a que os profissionais chamam fotografia de qualidade, ou sequer fotografia, mas tão só as folhas que recortam e ondulam sobre a parede branca. A simplicidade da redescoberta, o andar sozinha, a ver, de olhos no ar, a tropeçar nos buracos, sem a mentira e ofuscação das produções; o esgar momentâneo e único de quem está, ou já passou, e com quem nunca mais virei a cruzar-me.

O meu sentimento, a minha máquina, a minha conclusão.
Foi assim que comecei.
Terminarei da mesma forma.

Creio que a isto se pode chamar liberdade.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

ainda António Barreto

Há coisas e pessoas que me fazem curvar pelo respeito que me merecem. António Barreto é uma dessas pessoas. Pela sua capacidade, objectividade e limpidez de raciocínio; por nunca ter ouvido este Homem falar ou escrever acerca do seu próprio umbigo; por o considerar um Ser Pensante.

O seu discurso de hoje é, para mim, um exemplo da sobrevivência do livre pensamento sem pseudo-erudições estéreis. Em cada palavra o peso exacto para o objectivo a atingir, simples de ler ou ouvir, para uma pessoa de cultura que nem necessita de ser média.

Para mim, continuo a salvaguardá-lo, António Barreto é um dos últimos exemplos da capacidade de raciocínio e de exposição simples e directos.
Acrescento à minha opinião o peso que o regime ditatorial teve em algumas gerações, em vias de extinção, levadas a pensar porque tinham um objectivo Humanista, que ia além deles mesmos, tinham uma censura e um governo a contornar. Não é a defesa de um regime, mas o reconhecimento do que o negativo pode ter de positivo e de como a liberdade, ou pensamento de que a temos, pode conduzir a algum laxismo e, consequentemente, ao vazio de ideias e ideais.

Barreto não me surpreendeu. Dele espero sempre do melhor. Apenas me confirmou a expectativa.

Um discurso para pensar e seguir orientações, se tivermos a capacidade.

O discurso de António Barreto

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades
Santarém, 10 de Junho de 2009
António Barreto

"Senhor Presidente da República,
Senhor Presidente da Assembleia da República, Senhor Primeiro-ministro,
Senhores Embaixadores,
Senhor Presidente da Câmara de Santarém,
Senhoras e Senhores,

Dia de Portugal... É dia de congratulação. Pode ser dia de lustro e lugares comuns. Mas também pode ser dia de simplicidade plebeia e de lucidez.
Várias vezes este dia mudou de nome. Já foi de Camões, por onde começou. Já foi de Portugal, da Raça ou das Comunidades. Agora, é de Portugal, de Camões e das Comunidades. Com ou sem tolerância, com ou sem intenção política específica, é sempre o mesmo que se festeja: os Portugueses. Onde quer que vivam.

Há mais de cem anos que se celebra Camões e Portugal. Com tonalidades diferentes, com ideias diversas de acordo com o espírito do tempo. O que se comemora é sempre o país e o seu povo. Por isso o Dia de Portugal é também sempre objecto de críticas. Iguais, no essencial, às expressas por Eça de Queirós, aquando do primeiro dia de Camões. Ele afirmava que os portugueses, mais do que colchas às varandas, precisavam de cultura.

Estranho dia este! Já foi uma "manobra republicana", como lhe chamou Jorge de Sena. Já foi "exaltação da raça", como o designaram no passado. Já foi de Camões, utilizado para louvar imperialismos que não eram os dele. Já foi das Comunidades, para seduzir os nossos emigrantes, cujas remessas nos faziam falta. E apenas de Portugal.

Os Estados gostam de comemorar e de se comemorar. Nem sempre sabem associar os povos a tal gesto. Por vezes, quando o fazem, é de modo desajeitado. "As festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam populares", disse também Eça de Queirós. Tinha razão. Mas devo dizer que temos a felicidade única de aliar a festa nacional a Camões. Um poeta, em vez de uma data bélica. Um poeta que nos deu a voz. Que é a nossa voz. Ou, como disse Eduardo Lourenço, um povo que se julga Camões. Que é Camões.
Verdade é que os povos também prezam a comemoração, se nela não virem armadilha ou manipulação.

Comemora-se para criar ou reforçar a unidade. Para afirmar a continuidade. Para reinterpretar o passado. Para utilizar a História a favor do presente. Para invocar um herói que nos dê coesão. Para renovar a legitimidade histórica. São, podem ser, objectivos decentes. Se soubermos resistir à tentação de nos apropriarmos do passado e dos heróis, a fim de desculpar as deficiências contemporâneas.

Não é possível passar este dia sem olharmos para nós. Mas podemos fazê-lo com consciência. E simplicidade.
Garantimos com altivez que Camões é o grande escritor da língua portuguesa e um dos maiores poetas do mundo, mas talvez fosse preferível estudá-lo, dá-lo a conhecer e garantir a sua perenidade.
Afirmamos, com brio, que os portugueses navegadores descobriram os caminhos do mundo nos séculos XV e XVI e que os portugueses emigrantes os percorreram desde então. Mais vale afirmá-lo com o sentido do dever de contribuir para a solidez desta comunidade.
Dizemos, com orgulho, que o Português é uma das seis grandes línguas do mundo. Mas deveríamos talvez dizê-lo com a responsabilidade que tal facto nos confere.

Quando se escolhe um português que nos representa, que nos resume, escolhe-se um herói. Ele é Camões. Podemos festejá-lo com narcisismo. Mas também com a decência de quem nele procura o melhor.
Os nossos maiores heróis, com Camões à cabeça, ilustraram-se pela liberdade e pelo espírito insubmisso. Pela aventura e pelo esforço empreendedor. Pela sua humanidade e, algumas vezes, pela tolerância. Infelizmente, foram tantas vezes utilizados com o exacto sentido oposto: obedientes ou símbolos de uma superioridade obscena.

Ainda hoje soubemos prestar homenagem a Salgueiro Maia. Nele, festejámos a liberdade, mas também aquele homem. Que esta homenagem não se substitua, ritualmente, ao nosso dever de cuidar da democracia.

As comemorações nacionais têm a frequente tentação de sublinhar ou inventar o excepcional. O carácter único de um povo. A sua glória. Mas todos sentimos, hoje, os limites dessa receita nacionalista. Na verdade, comemorar Portugal e festejar os Portugueses pode ser acto de lucidez e consciência. No nosso passado, personificado em Camões, o que mais impressiona é a desproporção
entre o povo e os feitos, entre a dimensão e a obra. Assim como esta extraordinária capacidade de resistir, base da "persistência da nacionalidade", como disse Orlando Ribeiro. Mas que isso não apague ou esbata o resto.

Festejar Camões não é partilhar o sentido épico que ele soube dar à sua obra maior, mas é perceber o homem, a sua liberdade e a sua criatividade. Como também é perceber o que fizemos de bem e o que fizemos de mal. Descobrimos mundos, mas fizemos a guerra, por vezes injusta. Civilizámos, mas também colonizámos sem humanidade. Soubemos encontrar a liberdade, mas perdemos anos com guerras e ditaduras.

Fizemos a democracia, mas não somos capazes de organizar a justiça. Alargámos a educação, mas ainda não soubemos dar uma boa instrução. Fizemos bem e mal. Soubemos abandonar a mitologia absurda do país excepcional, único, a fim de nos transformarmos num país como os outros. Mas que é o nosso. Por isso, temos de nos ocupar dele. Para que não sejam outros a fazê-lo.

Há mais de trinta anos, neste dia, Jorge de Sena deixou palavras que ecoam. Trouxe-nos um Camões humano, sabedor, contraditório, irreverente, subversivo mesmo.
Desde então, muito mudou. O regime democrático consolidou-se. Recheado de defeitos, é certo. Ainda a viver com muita crispação, com certeza. Mas com regras de vida em liberdade.

Evoluiu a situação das mulheres, a sua presença na sociedade. Invisíveis durante tanto tempo, submissas ainda há pouco, as mulheres já fizeram um país diferente.

Mudou até a constituição do povo. A sociedade plural em que vivemos hoje, com vários deuses e credos, com dois sexos iguais, com diversas línguas e muitos costumes, com os partidos e as associações que se queira, seria irreconhecível aos nossos próximos antepassados.

A sociedade e o país abriram-se ao mundo. No emprego, no comércio, no estudo, nas viagens, nas relações individuais e até no casamento, a sociedade aberta é uma novidade recente.

A pertença à União Europeia, timidamente desejada há três décadas, nem sequer por todos, é um facto consumado.

A estes trinta anos pertence também o Estado de protecção social, com especial relevo para o Serviço Nacional de Saúde, a segurança social universal e a escolarização da população jovem. É certamente uma das realizações maiores.

Estas transformações são motivo de regozijo. Mas este não deve iludir o que ainda precisa de mudança. O que não foi possível fazer progredir. E a mudança que correu mal.

A Sociedade e o Estado são ainda excessivamente centralizados. As desigualdades sociais persistem para além do aceitável. A injustiça é perene. A falta de justiça também. 0 favor ainda vence vezes de mais o mérito. O endividamento de todos, país, Estado, empresas e famílias é excessivo e hipoteca a próxima geração. A nossa pertença à União Europeia não é claramente discutida e não provoca um pensamento sério sobre o nosso futuro como nacionalidade independente.

Há poucos dias, a eleição europeia confirmou situações e diagnósticos conhecidos. A elevadíssima abstenção mostrou uma vez mais a permanente crise de legitimidade e de representatividade das instituições europeias. A cidadania europeia é uma noção vaga e incerta. É um conceito inventado por políticos e juristas, não é uma realidade vivida e percebida pelos povos. É um pretexto de Estado, não um sentimento dos povos. A pertença à Europa é, para os cidadãos, uma metafísica sem tradição cultural, espiritual ou política. Os Estados e os povos europeus deveriam pensar de novo, uma, duas, três vezes, antes de prosseguir caminhos sem saída ou falsos percursos que terminam mal. E nós fazemos parte desse número de Estados e povos que têm a obrigação de pensar melhor o seu futuro, o futuro dos Portugueses que vêm a seguir.
É a pensar nessas gerações que devemos aproveitar uma comemoração e um herói para melhor ligar o passado com o futuro.
Não usemos os nossos heróis para nos desculpar. Usemo-los como exemplos. Porque o exemplo tem efeitos mais duráveis do que qualquer ensino voluntarista.

Pela justiça e pela tolerância, os portugueses precisam mais de exemplo do que de lições morais.

Pela honestidade e contra a corrupção, os portugueses necessitam de exemplo, bem mais do que de sermões.

Pela eficácia, pela pontualidade, pelo atendimento público e pela civilidade dos costumes, os portugueses serão mais sensíveis ao exemplo do que à ameaça ou ao desprezo.

Pela liberdade e pelo respeito devido aos outros, os portugueses aprenderão mais com o exemplo do que com declarações solenes.

Contra a decadência moral e cívica, os portugueses terão mais a ganhar com o exemplo do que com discursos pomposos.

Pela recompensa ao mérito e a punição do favoritismo, os portugueses seguirão o exemplo com mais elevado sentido de justiça.

Mais do que tudo, os portugueses precisam de exemplo. Exemplo dos seus maiores e dos seus melhores. O exemplo dos seus heróis, mas também dos seus dirigentes. Dos afortunados, cujas responsabilidades deveriam ultrapassar os limites da sua fortuna. Dos sabedores, cuja primeira preocupação deveria ser a de divulgar o seu saber. Dos poderosos, que deveriam olhar mais para quem lhes deu o poder. Dos que têm mais responsabilidades, cujo "ethos" deveria ser o de servir.

Dê-se o exemplo e esse gesto será fértil! Não vale a pena, para usar uma frase feita, dar "sinais de esperança" ou "mensagens de confiança". Quem assim age, tem apenas a fórmula e a retórica. Dê-se o exemplo de um poder firme, mas flexível, e a democracia melhorará. Dê-se o exemplo de honestidade e verdade, e a corrupção diminuirá. Dê-se o exemplo de tratamento humano e justo e a crispação reduzir-se-á. Dê-se o exemplo de trabalho, de poupança e de investimento e a economia sentirá os seus efeitos.

Políticos, empresários, sindicalistas e funcionários: tenham consciência de que, em tempos de excesso de informação e de propaganda, as vossas palavras são cada vez mais vazias e inúteis e de que o vosso exemplo é cada vez mais decisivo. Se tiverem consideração por quem trabalha, poderão melhor atravessar as crises. Se forem verdadeiros, serão respeitados, mesmo em tempos difíceis.

Em momentos de crise económica, de abaixamento dos critérios morais no exercício de funções empresariais ou políticas, o bom exemplo pode ser a chave, não para as soluções milagrosas, mas para o esforço de recuperação do país."

quinta-feira, 4 de junho de 2009

estafilocous aureus MRSA


... mesmo com sono, não me deixa dormir.

terça-feira, 26 de maio de 2009

na realidade

... não sei quem disse isto, mas parece-me válido para pensar:


"Pensamos que planeta vamos deixar aos nossos filhos, mas quando é que vamos pensar em deixar filhos melhores para o planeta?"

domingo, 17 de maio de 2009

voltando a "bater no ceguinho"


...falar é obrigarmos a que o outro nos oiça. Conversar é partilhar: ideias, opiniões, confissões, é ter capacidade de dar e receber, é saber escutar.
Foi por sentir desde muito cedo que a maior parte das pessoas falava, que optei por me expressar pela fotografia. Não vou dizer que a situação não me criou algumas barreiras psicológicas que julgava dificílimas de ultrapassar. Hoje, e não é pela maturidade mas pelas pessoas que a vida me tem vindo a oferecer, constato que não tenho a falha que me apontava de não conseguir entabelar uma conversação. Não! Tenho é um enorme prazer em conversar e, se há falha da minha parte, é a falta de paciência que possuo para falar ou ouvir falar.
Srª. Forte Martins, Srª Guerra, Srª Silva, Srª Condeço e, provavelmente mais algumas damas e cavalheiros de quem, por ausência de memória, se me escapam os nomes, até mais uma cambalhota da vida nos sparar, e mesmo após ela, ficam marcadas como aquelas que me mostraram que ter mais prazer em partilhar do que em debitar ou ouvir debitar faladura não é um defeito, mas um apuro da personalidade.
Osculo-vos, criaturas, mesmo que nem saibam da existência deste blog (estas coisas também se transmitem telepaticamente!)
;)

domingo, 3 de maio de 2009

a uma altura elevada


... em movimentos "sem rede", num emaranhado de linhas emocionais.